Orações de Lena Bahule em frente da Catedral
NO altar do Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, a jovem vocalista e intérprete Lena Bahule, procedeu as suas orações em jeito de música.
O mote do concerto de sábado à noite foi o lançamento da sua estreia discográfica, Nômade, composto por 12 músicas que extrapolam limites estéticos, explorando sobremaneira as possibilidades da vocalidade.
Num palco composto de forma simples,
tendendo a recordar um ambiente acústico e artesanal, com Lena Bahule e
Tchaka, iniciou o concerto, obedecendo ao ritual africano de tributo aos
antepassados, no início de uma jornada fez-se o “Ku Phalha”, que é a
peça que abre o álbum.
Com a sala cheia, com recurso apenas à
sua voz e das outras seis vocalistas, o concerto foi dando os seus
primeiros passos, onde a sua técnica de conjugação vocal com o corpo e o
chão do próprio palco foi alimentando o propositado vazio instrumental.
Nessa leva, foram os temas “Abrir as Portas”, “Chombela” e “Hoya Hoya”.


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Diante da Catedral Metropolitana de Nossa
Senhora da Conceição, que está imediatamente em frente, a Sala Grande
do “Franco”, depois do seu recinto, a plateia assistiu a uma intérprete,
cuja entoação e colocação vocal possui traços das cantigas do
cristianismo.

O concerto ia se mantendo constante, meio
monótono, quando Lena Bahule anunciou o cultor da música Chopi e membro
da Orquestra Timbila Muzimba, Cheny Wa Gune, que colaborou em algumas
composições do álbum, como “Cumbará Cumbi”, que foi a primeira que
interpretaram juntos.
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Cheny Wa Gune conduz a timbila, enquanto Lena a as suas coristas, exploram a vocalidade que dominou o concerto.
Num exercício para acompanhar a timbila e
a voz de Lena Bahule, estava o baterista Stélio Zoé. De seguida, foi
“Hoverela”, para a qual já foi acrescido o percepcionista Nelson para
interpretar.
O caminho que ela decidiu seguir, para as
suas orações musicadas eram recriações das suas próprias músicas, uma
vez que seguiam, nalguns casos, uma estrutura diferente da que se têm no
álbum em si.
Depois de “Pakeleô”, para a qual convidou
os gémeos Augusto e Elias Manhiça, líderes e fundadores da Banda Hodi
para a percussão, Chabuca no baixo e Danilo Morais na viola
semi-acústica, as acrobacias vocais voltaram em “Solomoni”.
Uma vez que “Nômade” é feito de várias
colaborações, May Mbiri, subiu ao palco, com a sua mbira, enquanto a
Lena, igualmente, tinha em suas mãos uma kalimba. Foi com a música
“Kalimba”, onde ambos executavam os instrumentos e faziam a voz que se
deu o dueto.
O sotaque já dominado pelo
“brasileirismo” de Lena Bahule anunciou a vinda para o centro do palco,
do brasileiro Danilo Morais, que proporcionou um dos momentos peculiares
do concerto, ao interpretar, cantando inclusive, “Hodi” e “Georgina” da
lendária Fany Mfumo.
A derradeira acção de graças foi com a
música “Oração”, que inicia com os seguintes versos “cantar, dançar e
celebrar a tua graça, meu santo criador”. Já nessa altura o espectáculo
caminhava para o fim.
“Ngalila Sofê”, “Kambidi”, “Maloya”, “Kungô”- que ficou registado no programa Sofar São Paulo – constaram do repertório.
 “Ela esteve muito presa à academia
durante o concerto todo”, comentava Crespim Mabuluko, espectador,
comentando, no final do concerto.
Não se pode deixar de referir que o som esteve bom e que a luz, igualmente, nutriu o conceito do concerto.

Publicado no Jornal Notícias, na edição de 12/02/18

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