Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto: Afrossinfonicidade (Ao Vivo)

Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto: Afrossinfonicidade (Ao Vivo)

Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto: Afrossinfonicidade
_

Uum dos encontros mais singulares da música brasileira. Gravado na Concha Acústica, em Salvador, o disco e o audiovisual são registros de uma parceria que começou nos palcos e se mostrou grande demais para ficar só neles.

O projeto nasce de uma pergunta simples e de resposta complexa: o que acontece quando a tradição percussiva afro-brasileira e a linguagem sinfônica param de se olhar de longe e decidem, de fato, se envolver? A resposta está no projeto e é surpreendente.

Carlinhos Brown, nascido no Candeal Pequeno, em Salvador, construiu uma obra que resiste a rótulos. Compositor de canções que viraram patrimônio coletivo, criador da Timbalada, parceiro de Marisa Monte, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Arnaldo Antunes, ele carrega na trajetória a marca de quem sempre entendeu a música como fenômeno coletivo, comunitário, anterior às divisões entre gêneros e hierarquias.

Sua relação com a percussão não é técnica. É espiritual. Sua música antecede a organização pitagórica e se sustenta no pulso, na memória ancestral. Na parceria com a Orquestra Ouro Preto, ela encontra um território de expansão e quebra de paradigmas.

A Orquestra Ouro Preto, por sua vez, é conhecida como uma das formações mais inventivas do país, justamente por recusar o isolamento que muitas vezes acompanha o universo sinfônico. Sob a direção artística e regência do Maestro Rodrigo Toffolo, a formação mineira tem construído uma história de diálogos sem perder a excelência que a caracteriza. Em Afrossinfonicidade, esse rigor encontra o improviso. E os dois se reconhecem.

Gravado ao vivo, o trabalho preserva o que o estúdio dificilmente capturaria: a forma orgânica como músicos se escutam, os contracantos que nascem do instante, a sensação de que aquilo está acontecendo pela primeira e última vez ao mesmo tempo.
E fica o recado: o disco não é um projeto de reconciliação entre mundos opostos. Muito menos o fim de um projeto com infinitas possibilidades. É a demonstração de que esses mundos nunca foram tão opostos quanto pareciam. Entre o tambor e o violino, entre o terreiro e o teatro, entre Minas e Bahia, entre Castro Lobo e Castro Alves, há uma continuidade que a música brasileira conhece bem, mas que raramente encontra forma tão bem acabada para se expressar.

Leave a Reply

Back To Top